Uma das crônicas mais famosas de Rubem Braga começa com o seguinte parágrafo: “Os americanos, através do radar, entraram em contato com a Lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho.”

Agora, mais de 70 anos depois, os americanos estudam o interior de Marte com um robô que pousou no planeta na semana passada, o que não deixa de ser emocionante, mas o fato mais importante de hoje é o julgamento do habeas corpus de Lula na Segunda Turma do STF.

Claro que o pé de milho de Rubem Braga, que tinha uma força e uma alegria que lhe faziam bem e se afirmava com ímpeto e certeza, era muito mais interessante que um ex-presidente que recebia propinas em troca de contratos públicos e que tenta se afirmar com cinismo e arrogância, como fez em depoimento à juíza Gabriela Hardt – aquela que lhe respondeu com firmeza que se continuasse nesse tom, iriam ter problemas.

Mas cada cronista tem o assunto que merece.

E enquanto ministros indicados por Lula, como Ricardo Lewandowski, e anti-Lava Jato, como Gilmar Mendes, votarem em julgamentos de pedido de liberdade do criminoso, por mais aberrante e anacrônica que seja a alegação da defesa, de que Sergio Moro agiu com parcialidade no caso do triplex porque mais de um ano depois aceitou ser ministro da Justiça do futuro governo de Jair Bolsonaro, terei de tratar do risco de impunidade.

Embora a tendência seja que Luiz Edson Fachin e Cármen Lúcia votem contra a soltura, restaria para desempatar o possível placar de 2 a 2 o voto de Celso de Mello, que já se uniu a Gilmar e Lewandowski na semana passada, legitimando o poder ilimitado do atual presidente para conceder indulto a corruptos. Unir-se de novo a eles seria como conceder poder ilimitado a um ex-presidente de roubar impunemente.

Até Torquato Jardim, atual ministro da Justiça no governo de Michel Temer, recusou-se a subscrever a narrativa petista.

A Folha de S. Paulo perguntou a Torquato se o fato de Moro ter aceitado o cargo em um governo que é abertamente adversário de um dos réus condenados por ele não coloca em dúvida sua postura.

“Não coloca em risco a credibilidade da Lava Jato?”, insistiu a Folha.

“Não, absolutamente não. Por que colocaria?”, questionou Torquato.

Porque, com a derrota do PT nas urnas, Lula precisa de uma alegação política qualquer para ser solto pelos seus togados de estimação, respondo eu.

E, como os julgamentos nas turmas não são transmitidos pela TV, precisamos que o robô da Nasa pouse hoje no STF para mostrar no interior daquele estranho planeta se haverá três togados hipócritas o bastante para condenar o caráter de Moro, como se o povo brasileiro estivesse no mundo da lua.