INTERSECÇÃO – DESPERDÍCIO, o impune crime ambiental

Por Roberio Sulz*

Dia cinco de junho é o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em todo o mundo especialmente com o objetivo de conscientizar pessoas, instituições, gestores de todos os setores e status, educadores e a humanidade em geral sobre a crescente degradação ambiental e a necessidade de se mudar comportamentos e implantar políticas públicas reclamadas para o setor.

Essa data é comemorada mundialmente desde 1972, sob os auspícios do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente em parceria com a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

O Ministério do Meio Ambiente, através do IBAMA, da Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano, do Instituto Chico Mendes e de outros órgãos a ele vinculados encoraja e apóia iniciativas ao nível municipal do poder público e de organizações privadas que busquem a participação popular nos encaminhamentos voltados para a conquista de um futuro não caótico ou menos caótico que o projetado a partir dos dados atuais.

Em 2013, a Mongólia sediou as comemorações da data e não por acaso. O presidente daquele país, Tsakhia Elbegdorj, foi uma das personalidades honorificadas pelo PNUMA com o título de “Campeão da Terra”, em razão de ter implantado na Mongólia uma “economia verde”, isto é, uma administração fundamentalmente referenciada na sustentabilidade. Isto – imaginem – num país com sérias dificuldades para alimentar seu povo.

O tema então sugerido pela ONU para permear as celebrações da data ambiental foi “PENSAR, COMER e CONSERVAR – DIGA NÃO AO DESPERDÍCIO”, inspirado na extravagância e no desperdício de alimentos no chamado mundo desenvolvido e na endêmica fome que grassa em determinadas regiões do globo terrestre, registrando a infeliz estatística de uma em cada sete pessoas no mundo passar fome e mais de 20 mil crianças com menos de cinco anos morrerem todos os dias por conta de desnutrição.

Enquanto isso, um bilhão e trezentos milhões de toneladas de alimentos, ou para ser mais claro, um terço de toda a produção mundial é jogada fora todos os anos, pelo descarte de reservas alimentares com prazo vencido nos países ricos, também por hábitos irresponsáveis consequentes do exagerado poder de consumo seletivo por parte dos mais abastados e até por inadequadas práticas comerciais, de transporte e armazenamento. E – pasmem – caros leitores, esse desperdício é mais do que falta para alimentar nossos irmãos famélicos mundo a fora.

A produção mundial de alimentos tem obtido ganhos de produtividade fantásticos à sombra de novas tecnologias. Mas, pode estar trilhando um caminho vicioso, provocando mais desperdício que enchendo estômagos vazios.

Por azar, a produção de alimentos é a atividade mais consumidora de recursos naturais e a que mais compromete negativamente o ambiente.

Considerem que para a produção de um litro de leite são necessários mais de mil litros de água e cada bife de carne bovina consome quase três mil litros de água na nutrição do animal. Para produzir-se um quilo de arroz consome-se mais de dois mil litros de água. “A produção de alimentos ocupa 25% das terras habitáveis de nosso planeta e é responsável por 70% do consumo de água potável, 80% do desmatamento e 30% das emissões de gases estufas”,informa a FAO. Isso causa um tremendo impacto na elevação da temperatura global, na degradação dos solos, da indisponibilidade de água potável e na irrespirabilidade do ar. Em suma: se, por um lado, a produção de alimentos resolve a fome, por outro, contribui dramaticamente para piorar a qualidade de vida, do ponto de vista ambiental.

A gastança de recursos naturais não fica por aí. Os processos industriais consomem grandes quantidades de água, e deixam no ambiente, muitas vezes, danos irreparáveis. Aparelhos de TV, celulares, computadores e outros eletrônicos demandam consideráveis quantidades de recursos naturais renováveis e não renováveis, mas o iludido povo aumenta a cada dia oconsumo desses produtos.

A indução ao consumo via modismo é muito forte! Os males ao ambiente são escamoteados sob lindas paisagens artificiais. Até a produção de roupa compromete a qualidade ambiental. Exemplo: para a produção de uma calça jeans são necessários mais de quinze mil litros de água.

Desse jeito, a humanidade torna-se insustentável, a cada dia. A população mundial, hoje acima de sete bilhões de pessoas, já precisa dos recursos de um planeta e meio para viver e, se essa tendência assim prosseguir, em 2050 os esperados nove bilhões de habitantes demandarão três planetas Terra.

É esse caos antevisto que moldou o lema a ser refletido no Dia Mundial do Meio Ambiente do ano de 2013. Precisamos, sim, PENSAR, isto é, planejar o que vamos consumir para não incorrer em extravagâncias e exageros, no erro de adquirir inutilidades, supérfluos, imprestáveis e dispensáveis que logo vão virar lixo e demandar ainda mais recursos para lhes dar fim. COMER, ou por extensão, consumir justamente por necessidade e maximizar a eficácia do consumo para não gerar restos. CONSERVAR, ou seja, construir a segurança, o futuro, conferindo ao objeto do consumo o máximo de utilidade, o melhor custo/benefício, inclusive quanto a sua durabilidade, buscando ser criativo no seu reaproveitamento. Isso é DIZER NÃO AO DESPERDÍCIO, ao impune crime ambiental que ele representa.

*Roberio Sulz é biólogo e biomédico

(B.Sc.) pela UnB; M.Sc. pela

Universidade de Wisconsin, EEUU.

roberiosulz@uol.com.br . Pensador

por opção.

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