INTERSECÇÃO – FAROFA E PRETINHA


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12 de Março de 2018 09:33Comentários desativados em INTERSECÇÃO – FAROFA E PRETINHA

Por Roberio Sulz*
Perambulava pelas ruas, já fazia tempo, um cara conhecido pela alcunha de Farofa. Não se afastava muito do bairro onde tinha sua morada, no banco da pracinha. A não ser aos sábados, quando dava uma esticada até o mercado municipal, para aproveitar o movimento e as benesses da feira livre.

Sempre calmo e pacífico, aceitava de bom grado o que lhes ofertassem, principalmente alimentos. Os açougueiros da feira já o tinham como amigo especial. Não o deixavam sem um naco de carne. Ele agradecia a seu modo simpático, só compreendido pelos mais chegados.

Sua aparência nunca chegou perto dos modelos celebrados em concursos e programas de TV. Cabelos aloirados, duros, em desalinho, mais pareciam arames embaraçados. Lembrava um pequeno lobisomem. Apesar de sua pouca estatura, não era de externar gratuitamente bom humor. Fazia o tipo grosso, ranzinza e “na dele”. Não deixava por menos, respondia com agressividade a quem lhe fechasse a cara ou lhe fizesse ameaças. Parecia não ter amigos, visto sempre só.

Certo dia apareceu na pracinha, uma figura esquálida, magra e famélica. Aproximou-se. Farofa pouco afeito a ceder ou compartilhar seu território, só aceitou a proposta de companhia, depois de muita insistência. Cabelos pretos e ondulados, com algumas mechas brancas, fizeram cair-lhe bem o nome de Pretinha.

Era inverno, chuvas constantes e vento frio foram suficientes para caber uma parceira no banco. Dormiram juntos para o aquecimento corporal mútuo. Dia seguinte, Farofa convidou a parceira para mostrar-lhe as casas mais amáveis, onde sempre se conseguia comida e água fresca. Algumas eram tão generosas que nem se valiam de sobras em suas doações, preparavam cardápio especial, para os “da rua”. Também, segredou-lhe as casas onde não eram bem recebidos e se corria o risco de envenenamento com comida podre e outros truques.

Fora isso, passavam o dia brincando como duas crianças: pique-pega, presentinho escondido, quem chega primeiro etc.

Farofa ligou-se ainda mais a Pretinha quando soube ter sido ela expulsa de casa como traste indesejado. E ainda mais que seus pais adotivos a maltratavam com chicotadas, pontapés e surras de cabo de vassoura. Prometeu nunca passar nem perto daquele endereço. Cruz-credo, guardava-se na ira e no medo. Acumularia urina e fezes para um dia qualquer dar uma boa urinada e defecada no meio do portão daquela gente má.

Levou sua amiga à feira, apresentou-a a seus amigos açougueiros que se condoeram com sua magreza e lhe ofereceram nacos de carne de primeira.

Ganhou do pasteleiro, um pastel frito na hora exclusivo para ela. Lá pelas tantas, já de barriga cheia e estufada, voltaram para casa, ou seja, para o banco do praça. Sem pressa, pois a caminhada excedia a um quilômetro.

As rotineiras andanças diárias a visitar famílias caridosas mudaram, com o tempo, o físico de Pretinha. Já não mais tinha cambitos secos à mostra, seus cabelos negros ganharam brilho, e nem se amedrontava facilmente, com rompantes e gritos das pessoas. Tornou-se atrativa a outros da rua ou de casa. Fato que desagradava e deixava Farofa furioso. Contudo, tornava-o mais atencioso, protetor e carinhoso.

Num dia frio e chuvoso, de fazer lama nas ruas, Farofa e Pretinha foram bater numa residência reconhecidamente das mais generosas do bairro. Vendo- os encharcados e trêmulos, a dona da casa chamou-os para dentro, ofereceu- lhes toalhas e cama. De pronto, passou a preparar almoço para os dois.

Mandou fazer um pequeno barraco no quintal para abrigá-los. Não tardou a perceber a gravidez de Pretinha que, dali por diante, passou a receber tratos especiais, inclusive alimentação reforçada para garantir uma gravidez saudável.

Por fim, nasceram seis filhotes plenos de saúde e admirável beleza: o branquinho de tudo recebeu o nome Algodão; o malhado, Melancia; Farofinha era uma fêmea com a cara do pai; Vasco, branco com uma faixa diagonal no peito; Neguinho um macho tal qual a mãe e, por fim, Xeroquinha, outra cópia do pai.

Todos, inclusive os pais, receberam vacinas e vermífugos, antes de serem acolhidos em lares, onde ainda vivem sob clima de amor e ternura. Pretinha, até hoje, continua sendo amiga e companheira de sua acolhedora.

Farofa nem parece mais aquele, mora n’outra casa. Recebe banhos e tosa quinzenais em petshop. Passeia educadamente. É obediente e altamente responsável como cão de guarda.

Seu dono só não entende porque quando passa defronte a uma certa casa (a que jogou pretinha na rua), Farofa faz questão de urinar, defecar no portão e sair feliz da vida arrastando as patas e abanando o rabo.

*Roberio Sulz é biólogo e biomédico (B.Sc.) pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU.

roberiosulz@uol.com.br

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