INTERSECÇÃO – MEDEIROS NETO


Medeiros Neto é uma afável cidade do Extremo Sul da Bahia, localizada a oeste da rodovia BR-101, a 60 quilômetros de Teixeira de Freitas pela via estadual BA-290.

28 de agosto de 2017 16:49Comentários desativados em INTERSECÇÃO – MEDEIROS NETO

Por Roberio Sulz*
Medeiros Neto é uma afável cidade do Extremo Sul da Bahia, localizada a oeste da rodovia BR-101, a 60 quilômetros de Teixeira de Freitas pela via estadual BA-290.
Os simpáticos medeirosnetenses fazem sua cidade extraordinariamente receptiva. Diz-se que são conhecidos pelo mocotó, ou seja, pelo diâmetro de suas pernas, dada a faina diária de subir e descer ladeiras.
Não resta dúvida que a graciosa topografia urbana ondulada confere a seus habitantes invejável saúde e resistência física. Seu povo, inspirado no pioneirismo e na garra de Hermenegildo Neves da Silva e Chico Braço Forte, é, de longe, reconhecido pela força e pela disposição ao trabalho, além do destemor para enfrentar desafios.
De início, sua gente vivia da extração de madeira, com alguns ganhos adicionais por conta da descoberta da ipecacuanha, planta medicinal típica da região, comprada pelos laboratórios para a produção de medicamentos, principalmente xaropes, contra tosse e congestão das vias respiratórias.
Junto com Teixeira de Freitas e Itanhém, o povoado fazia parte do território de Alcobaça. Mas, com um detalhe: independente e gerador de riquezas próprias, o que proporcionou se desgarrar mais cedo, em 1958.
Esse era seu destino natural. A história da cidade de Medeiros Neto quase nada tem a ver com a de Alcobaça, sua mãe territorial. Distante e precariamente interligada por estradas carroçáveis, por lá respirava-se outra atmosfera. Enquanto em Alcobaça se curtia o sol nas areias, vestiam-se calções e camisetas, comia-se peixe e remedavam-se outros sotaques, em Água Fria tangia-se e ordenhava-se gado, cuidavam-se dos pastos, plantavam-se grãos, mandioca, cana e outras riquezas do campo. Seu povo acostumou-se a pisar na relva bem cedinho, molhar as botas, cheirar o mato, agachar para uma prosa, elaborar e consumir pacientemente seu cigarrinho de palha.
Que deslumbre ver sua paisagem pastoril! O verde viçoso de seus campos, delicadamente ondulados, coalhados de gado a pastar. Antes do sol nascer, ainda sob a aurora neblinada, suados tambores de leite ordenhados pela madrugada, nos portões das fazendas, prontos para recolhimento.
Na feira livre do final de semana, folhagens, frutas, legumes, queijos frescos, temperos etc. incensavam as falas e estimulavam os agrupamentos. Mais pareciam informais parlamentos e câmaras de negócios. Falava-se de tudo, das chuvas com trovoada e sem trovoada; do nunca satisfatório preço do leite; da costumeira desatenção do poder público; do compadre que garrou certa doença; da filha do compadre que virou moça e se desabrochou em saúde e beleza etc.
A conversa ficava mais animada quando o assunto era a esperada festa da padroeira, Nossa Senhora da Imaculada Conceição, no fim de semana mais próximo do dia 8 de dezembro.
– Será que vem padre de Caravelas? Já tem dois anos que não aparece uma batina por aqui. O último foi Frei Elias, homem dos pobres, que não fazia
questão de luxo. Montava muito bem a cavalo, viajava até em carroceria dos caminhões de Lolô Cunha, transportadores madeira. Tomava banho no rio. Muriçoca para ele era música – acrescentava José Rex, tradicional fotógrafo local.
Foi essa força comunitária e muita convergência de interesses coletivos que traçou o contorno social dos pioneiros aguafrienses. Antecipando-se a John Kennedy, os migrantes por lá chegados não perguntavam “o que Água Fria pode fazer por nós”, mas “o que podemos fazer por Água Fria?”.
Apostaram na equação que iguala produção e consumo com geração de riqueza. Valorizaram o abastecimento interno e o potencial de consumo de seus próprios munícipes. Fortaleceram as negociações externas de compra e venda com as localidades vizinhas, principalmente de Minas Gerais, Nanuque, Serra dos Aimorés, Carlos Chagas etc. Ou seja, os aguafrienses criaram e desenvolveram suas próprias fontes de riqueza e lá fincaram um polo de produção primária e integração comercial.
Com o tempo, pressões populares emergiram visando à emancipação municipal de Água Fria. Alinharam-se a esse propósito os próprios gestores alcobacenses, reconhecendo dificuldades para administrar distritos tão remotos. Foi Deolisano Rodrigues de Souza (Dozinho) que, ao se eleger prefeito de Alcobaça, em 1951, e vereador por dois mandatos seguidos, liderou e conduziu gestões políticas nas esferas estadual e federal para o reordenamento territorial do município, contando com o valioso apoio do Deputado Oscar Cardoso.
Em 14 de agosto de 1958, por força do Decreto 1031, foram elevados à condição de municípios os distritos de Itanhém e Água Fria, este último recebendo o nome de Medeiros Neto, em homenagem ao Senador Antônio Garcia de Medeiros Neto, filho da região. A consolidação municipal de Medeiros Neto deu-se com a eleição e posse de seu primeiro prefeito, em 29 de abril de 1959.
Contudo, não bastava o diploma legal de criação da cidade. Foram, sobretudo, as atitudes cívicas de sua gente que conseguiram transformar vielas em ruas, praças em jardins, amizades em família, povo em comunidade, enfim, Água Fria em Medeiros Neto.

*Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. Pensador por opção. roberiosulz@uol.com.br

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