INTERSECÇÃO – PRIMAVERA




26 de setembro de 2017 12:14Comentários desativados em INTERSECÇÃO – PRIMAVERA

 

Por Roberio Sulz*

Passamos pelo equinócio de verão no hemisfério sul. Que bons ventos nos venham. Nós, praianos da costa nordestina, estamos enjoados e saturados do constante vento sul, frio, a nos soprar os ouvidos. Por mais que tentasse em sua lufadas violentas, o vento sul não conseguiu tirar a praia do lugar. Mas, espantou muitos turistas. Só vieram para cá aqueles mineiros aficionados pela orla marítima. Esses nem dão bola para a ventania. Curtem-na como o poeta que cantou e se encantou com seus assobios nos telhados e a viu balançar as palhas dos coqueiros. Pouco se importam com o açoite da areia a lhes resvalar nas pernas e lhes ceifar os pelos. Nesse tocante, as mulheres até agradecem por lhes evitar o sacrifício das ceras depiladoras.

Não foi fácil! Desde maio, convivemos com chuvas de quebrar guarda-chuvas e temperaturas muito abaixo do normal. Os comerciantes de moletom e outros agasalhos lavaram a égua. Até na feira, ambulantes expunham casacos à venda. Botequins esgotaram seus estoques de cachaça. A turma dos pés descalços tratou de arrumar sapato ou, no mínimo, chinelo para não experimentar o chão frio. As fogueiras, geralmente restritas às festas juninas,estenderam-se por julho a fora. Coou-se mais café pela manhã e as sopas quentes ocuparam maior espaço nas mesas do jantar. Claro que não agradou aos pescadores embarcados, sujeitos a riscos, gripes e resfriados.

Para acabar com essa chateação, está aí a primavera. É ocasião para festejar a alegria e dar boas-vindas ao sol que acaba de “atravessar” a linha do equador e “pisar” no hemisfério sul. Seu discurso de chegada é conhecido: “resgatem seus costumes com bermudas e camisetas! Liguem os sons! Caminhem nas trilhas não mais escuras!” Absorvamos, pois, sua energia com muita alegria e pondo língua ao vento sul.

Guardemos os agasalhos de frio. Não mais ficaremos entocados nos fins de semana. Abriremos os braços na praia debaixo da luz solar companheira. Respiraremos fundo, como quem quer se apropriar de todo o ar do universo. Agradeceremos à primavera, que lembra flores, fala de cores e amores e nos faz esquecer os horrores.

Bom viver nos trópicos. Aqui a natureza é mais que generosa. Premia-nos com alegria e prazer de viver de setembro a maio do ano seguinte. Seu auge é o verão, quando tudo ganha mais cor, brilho e beleza. Assim como todo grande espetáculo, o verão é precedido de uma festiva manifestação. Não é sem sentido que a natureza nos oferece a primavera como show de abertura. O vigor verde
do rebrote das plantas, as flores em seus múltiplos perfumes e cores, as aves em festa, cantando e ensinando seus rebentos a voar.

É também notável o comportamento de certas plantas, como a amendoeira-da-praia (Terminalia catappa, L.). Importada do hemisfério norte ainda guarda costumes de sua origem. Perdem suas folhas no mês de setembro, época que marca o início do outono de lá. Aqui a queda de suas folhas ocorre em pleno inverno, estendendo-se até o início da primavera, o que mostra umaainda forte vinculação com variação climática.

Para quem mora na beira da praia aspirando a brisa, o mar, a primavera reserva espetáculos admiráveis, como o movimento de botos cinzas a transitarem nas águas rasas costeiras em busca de cardumes de pequenos peixes.Para muitos, é oportunidade para apreciar, em alto mar, o desfile e acasalamento das baleias jubarte, mormente nestes nossos costados vizinhos ao Arquipélago de Abrolhos. Os ritos de acasalamento são curiosos. Implicam em violentas batidas das nadadeiras caudais na superfície da água. Fato que causa espanto aos observadores de primeira viagem. Na caminhada iniciada nos gelados mares antárticos, esses gigantescos mamíferos aquáticos trazem consigo seus não muito menos gigantescos filhotes. É para encher os olhos dequem admira a natureza e gosta de guardar em fotos espetáculos raros de se ver.

A primavera também marca o frenesi das reformas nas casas de veraneio. Ganham novas tintas e até renovadas fachadas. Boa oportunidade para dar um trato na calçada, onde a família poderá se reunir para ver o povo passar e
cumprimentar. Tudo em nome do pleno prazer de se curtir o calor, o mar e receber parentes e amigos para ajustes nas notícias e causos.

O alvoroço também atinge os hotéis, pousadas e casas de aluguel temporário, levando-os a incrementar seus equipamentos e organizar o serviço de reservas. As cabanas ou barracas comerciais de praia geralmente ganham aparência renovada, por vezes, novo cardápio além de treinamento para a boa prestação dos serviços.

Até os comerciantes mudam de humor. Ocupam-se com prazer em pressupor e discutir com sócios e concorrentes as demandas que advirão dos turistas e veranistas: cor dos trajes de praia que predominará no verão; guarda- sóis mais resistentes a eventuais pés de vento; novos modelos de sandálias, chinelos e bonés etc. As prateleiras de bebidas passam a ostentar cachaça de boa qualidade, uísques de doze e oito anos, vodcas importadas e, sobretudo, cerveja, muita cerveja. As sorveterias igualmente inovam em sabores e combinações visualmente mais atrativas.

 

*Roberio Sulz é biólogo e
biomédico pela UnB; M.Sc. pela
Universidade de Wisconsin,
EEUU. Pensador por opção.
roberiosulz@uol.com.br

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